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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Profissional esconde dependência

Com a imagem de super-heróis e sob pressão intensa, altos executivos evitam pedir auxílio

Folha de São Paulo - DE SÃO PAULO

Competitividade, pressão por resultados e solidão são uma combinação explosiva entre executivos. Com receio de perder o posto e impelidos a trazer retorno para a companhia, muitos escondem o uso de drogas -sejam ansiolíticos sejam drogas ilícitas.

"O executivo é muito solitário, e o ambiente é altamente competitivo. A demonstração de fraquezas é duramente tratada", afirma Antonio Carlos Worms Till, diretor da clínica Vita Check-Up.

A imagem que as corporações têm dos profissionais que compõem o alto escalão é a de heróis. "Se ele não for o super-homem, será preterido em relação a outros e malvisto politicamente", frisa.

O cenário torna a identificação de executivos para tratamento e auxílio dentro das companhias uma tarefa hercúlea. A dificuldade é sentida até mesmo em hospitais.
As psicólogas Mariana Guarize e Janaína Xavier Santos, que coletaram dados sobre uso de remédios controlados e drogas ilícitas para pesquisa no HCor, contam que, frequentemente, o profissional só assume o uso de psicotrópicos em entrevista, não em formulários.

"Muitas vezes, os executivos só falavam sobre o uso de remédios quando abordávamos insônia, ansiedade e depressão", destaca Guarize.

PRESSÃO
Não são apenas os altos executivos de empresas que têm medo de expor fragilidades no ambiente de trabalho.

Sob pressão intensa na companhia, a analista de sistemas M.Y., 39, teve um surto -que incluiu sintomas como dificuldade de respirar, sudorese e pressão alta.
Foi levada pelos colegas para o hospital. Lá, o médico receitou ansiolíticos.
O ataque ocorreu há um ano e, desde o episódio, a profissional toma o remédio.

Mas, sobre isso, ela não diz uma palavra no trabalho. "Podem achar que eu sou uma pessoa que não aguenta pressão", analisa.

Em segredo, a advogada P.W., 34, internou-se em uma clínica de reabilitação há dez meses. Ela tentava se livrar dos problemas com o consumo de drogas como álcool, cocaína e ecstasy.

Durante os 20 dias em que ficou internada, teve que "implorar para trabalhar, para não perder prazos importantes em processos". Após muita negociação, obteve acesso a computador com internet por algumas horas por dia.

"Tem gente que fuma crack e é presidente de empresa - e não o estereótipo do sujeito caído na rua. Muitos não pedem ajuda por causa da visão estereotipada de que quem se droga não tem trabalho", avalia a advogada.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Pô! Me pedir pra ler site de maconheiro já é um pouco demais! Ou: questão de lógica elementar

Por Reinaldo Azevedo

Pô, pessoal! Mandar pro Tio Rei link do que sites de maconheiros andam dizendo sobre o blog? Sacanagem, né? Vocês não acham mesmo que vou bater boca com a turma, né? Aliás, deve ser coisa dos próprios autores. É preciso estar meio fumado para achar que vou entrar nessa. Eu lá quero saber o que maconheiros fazem da vida!? Por mim, se quiserem fumar o cocô do cavalo do bandido, não tou nem aí; não é problema meu. Eu debato é política pública.

Liberada a maconha, não há nenhuma boa razão para manter na ilegalidade as demais drogas. “Ah, são mais fortes…” Entendi: vamos permitir a alteração de consciência, mas só um pouquinho… O que deixa essa turma furiosa — e, até que não tenham resposta para isto, deveriam parar de torrar a paciência — é que não há argumento possível para a descriminação do crack, por exemplo. O desastre é muito visível. Daí o esforço para tornar a maconha alguma coisa leve, sem conseqüência, como tomar um Chicabon. O problema de evocar as drogas pesadas é que elas denunciam a real natureza da maconha.

Como o povo é ruim de lógica — e não seria um maconheiro a gostar desse esporte (é claro que os há inteligentes, apesar da droga, não por causa dela) —, as bobagens vão se acumulando. Há pesquisas aos montes, basta procurar, demonstrando que a primeira droga dos usuários de substâncias pesadas foi a maconha. Há uma escala e uma escalada. Aí o sujeito simplesinho diz assim: “Ainda que a primeira droga dessa turma tenha sido a maconha, a verdade é que um monte de gente fica só na maconha”. Mas isso reforça o meu argumento, não o dele. Como? Eu explico.

Se a maconha é a porta de entrada para a espiral sem volta, quanto mais pessoas expostas à primeira droga, maior será o número de pessoas caminhando para o abismo. A legalização da maconha seria apenas um fator de expansão do mercado consumidor das drogas pesadas, em cuja legalização ninguém fala porque a defesa da liberação da maconha só pode ser feita depois do assassinato da lógica. Em suma: AFIRMAR QUE A LEGALIZAÇÃO DA MACONHA DIMINUI O PODER DO NARCOTRÁFICO E UMA FALÁCIA. SÓ AUMENTARIA A CLIENTELA DO TRAFICANTE DAS DROGAS QUE CONTINUASSEM PROIBIDAS. Ou, então, libere-se tudo! E que Deus tenha de nós a piedade que os homens não tiveram.

PS - “Se a pessoa quer o abismo, problema dela”, dirá um “liberal inocente”, achando ser um “liberal liberal”, em oposição a este “liberal conservador”. Infelizmente, não é assim. O exército de zumbis dos crack que vagam hoje pelas nossas cidades evidencia que não se trata apenas de uma questão de escolha pessoal.

Fonte: UNIAD

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Maconha aumenta o risco de psicose

essoas que consumiram maconha na adolescência ou no início da vida adulta enfrentam maior risco de apresentar sintomas de psciose mais tarde, afirma um estudo recém-divulgado.

A pesquisa, realizada pelo professor Jim van Os, da Universidade de Maastricht, da Holanda, foi feita na Alemanha, e contou ainda com pesquisadores da Suíça e da Grã-Bretanha.

A psicose é uma desordem mental na qual o indivíduo perde o contato com a realidade.

O estudo, publicado na revista especializada British Medical Journal, acompanhou um total de 1.923 pessoas ao longo de um período de dez anos

Apesar de as relações entre maconha e psicose já serem conhecidas, ainda não estava claro se era a maconha que desencadeava os sintomas dessa condição ou se as pessoas se sentem propensas a consumir a droga devido a seus sintomas. A pesquisa indica que a primeira hipótese é a mais provável.

Estudo

Os participantes da pesquisa tinham entre 14 e 24 anos. Eles foram avaliados em períodos distintos para aferir possíveis relações entre o uso de maconha e de manifestações de sintomas psicóticos.

O primeiro período estudado foi feito três anos após o início da pesquisa. A segunda amostragem ocorreu oito anos depois que a pesquisa começou. E a conclusão ocorreu dez anos após o começo do estudo.

Os pesquisadores colocaram os que já fumavam maconha em um grupo e excluíram os que apresentavam um quadro pré-existente de psicose, para que pudessem melhor estabelecer as ligações entre novos usuários de maconha e a apresentação de sintomas da doença.

A pesquisa também teria mostrado que aqueles que já fumavam maconha na época do começo da pesquisa enfrentariam riscos mais elevados de apresentar sintomas psicóticos persistentes.

Aumento

O estudo concluiu que o uso de maconha aumenta ''significativamente'' a incidência de sintomas psicóticos, mesmo quando outros fatores, como situação sócio-econômica, o uso de outras drogas e de condições psiquiátricas estão em jogo.

Além de afiramrem que o uso da maconha +e um fator de risco para o desenvolvimento de sintomas psicóticos, os cientistas envolvidos com a pesquisa disseram também que ''o uso repetido de maconha pode aumentar o risco de sofrer desordens psicóticas por ter impacto na persistência dos sintomas

De acordo com Robin Murray, professor de pesquisa psiquiátrica do Instituto de Psiquiatria da Grã-Bretanha, a pesquisa representa ''mais um tijolo no muro de provas'', de que o uso da maconha contribui para formas de psicoses como a esquizofrenia.

Segundo Murray, a pesquisa é um dos dez estudos similares que apontam nessa mesma direção.

Fonte: UNIAD

sexta-feira, 13 de maio de 2011

SÍNDROME DE DEPENDÊNCIA DE MACONHA

SÍNDROME DE DEPENDÊNCIA DE MACONHA

Analice Gigliotti (1); Cristiane Lopes (2); Ronaldo Laranjeira(3)

(1) médica psiquiatra, especialista em dependência química – UNIFESP –Mestre em Psiquiatria – UNIFESP – Chefe do Setor de Dependência Química da Santa Casa do Rio de Janeiro


Introdução

A maconha, nome comum da Cannabis sativa, é a droga ilícita mais usada em todo mundo, o que justifica o aumento das pesquisas em relação ao sistema canabinóide nos últimos 15 anos. Apesar do aumento dos estudos, principalmente em humanos, em torno das propriedades de abuso da maconha, ainda não são bem conhecidos seus efeitos psicotrópicos responsáveis por desenvolverem uma síndrome de dependência. Entender as mudanças que a maconha provoca no indivíduo ao longo do tempo é importante por várias razões, dentre elas, a prevenção de suas conseqüências, tais como prejuízo acadêmico, diminuição da produtividade laborativa e aumento do risco de uso de outras drogas.

Há ainda uma certa controvérsia a respeito da existência de uma síndrome de dependência da maconha, o que provoca grande polêmica na população leiga e principalmente entre os usuários de canabis, mas nos últimos anos, vem se acumulando evidências desta síndrome.


O reconhecimento da existência dessa síndrome é importante, pois seu desenvolvimento pode aumentar o risco de transtornos psiquiátricos como depressão, ansiedade e psicopatologias da personalidade. (1)


Em 1992 uma pesquisa feita pelo National Comorbidity Survey, com amostra representativa da população americana, mostrou que 4% dos indivíduos entrevistados de idade entre 15 e 54 anos preencheram critérios para dependência de maconha na data da avaliação. (2)


Além disso, em 1994, Anthony et al mostraram que de cada 11 indivíduos que usaram cannabis pelo menos uma vez na vida, um usuário desenvolveu síndrome de dependência de maconha de acordo com os critérios da DSM IV num período de 10 anos após o seu primeiro uso. Observou-se, também, que há um risco maior de desenvolvimento de dependência entre 1 e 3 anos após a primeiro experiência. (2) Newcomb et al (3) , mostrou em seu estudo prospectivo, iniciado em 1970, com acompanhamento por 12 anos, que 1 em cada 4 usuários de maconha desenvolveram síndrome de dependência no período compreendido entre a adolescência e a idade adulta jovem. Se esse risco fosse distribuído igualmente ao longo desses 12 anos ter-se-ia que cerca de 4% dos usuários tornaram-se dependentes a cada 2 anos.


Em estudo realizado em 2005, Campton et al (1) estudaram não somente a progressão como a prevalência do uso de maconha entre os anos de 1991-1992 e 2001-2002 em uma amostra de 42.862 e 43.093 pessoas, respectivamente, e observaram que não houve aumento significativo dos resultados na população geral, onde a prevalência de uso foi de 4% em ambos os períodos. Entretanto, houve um aumento significativo das taxas de abusadores ou dependentes entre os usuários de maconha entre os anos de 1991-1992 e 2001-2002 (30,2% e 35,6%, respectivamente). Este aumento, segundo os autores, pode estar relacionado, em parte, ao aumento do potencial adictivo da maconha, ou seja, houve um amento de 66% no teor de THC na amostra de maconha analisada em 2001-2002 (5,11%) comparativamente a de 1991-1992 (3,01% de THC).

Estudos realizados em humanos e em animais de laboratório comprovaram o efeito reforçador da maconha, através da auto-administração de canabinóides, ou seja, aqueles que foram expostos à substância tiveram maior probabilidade de procurar repetir seu uso, o que pode implicar um aumento da risco de abuso de maconha (4).

Acumulam-se também evidências de que o uso eventual de maconha tende a evoluir para o uso regular e daí para a dependência. Um estudo retrospectivo do grupo de trabalho de Transtornos por Uso de Substâncias da DSMIV, mostrou resultados consistentes com uma progressão para dependência nos abusadores de álcool e cannabis, mas não nos de cocaína e de opiáceos (5).


Neste estudo, feito com 1.226 indivíduos, mostrou-se que o diagnóstico de dependência de maconha era raro na ausência de um diagnóstico prévio de abuso. Tal achado tem importante implicação, indicando que medidas preventivas podem impedir tal progressão para a dependência e com ela todo o corolário de consequências que a acompanha.


Os critérios diagnósticos para dependência

O DSM-IV-TR (6) elenca sete critérios para diagnosticar a Síndrome de Dependência de Substâncias, que leva a deterioração ou sofrimento clinicamente significativo e que se manifesta por três (ou mais) dos seguintes itens, ocorrendo a qualquer momento no mesmo período de 12 meses:


1) Tolerância;


2) Abstinência;


3) A substância é consumida com freqüência em quantidades maiores ou durante períodos mais longos do que se pretendia (consumo maior que o pretendido);


4) Existe um desejo persistente ou esforços sem sucesso para eliminar ou controlar o uso da substância (tentativas frustradas de interrupção do uso);


5) Uma grande quantidade de tempo é despendida nas atividades necessárias para obtenção da substância, no uso e na recuperação de seus efeitos (tempo gasto com a droga);


6) Existe o abandono de importantes atividades sociais, ocupacionais ou recreacionais em função do uso da substância (droga como prioridade);


7) O uso da substância é continuado, apesar do conhecimento de ser um problema persistente ou recorrente físico ou psicológico que tenha sido causado ou exacerbado pela substância (uso da droga a despeito dos problemas por ela causados).


A seguir faremos um paralelo para sabermos se estes critérios aplicam-se a uma Síndrome de Dependência de Maconha.


1) Tolerância

Pesquisas com animais foram importantes para comprovar um dos critérios que compõe a síndrome de dependência, que é o aumento da tolerância, ou seja, a necessidade de doses maiores de maconha para obter os mesmos efeitos outrora atingidos com doses menores. Em sua pesquisa Gatley e Volkow (1998) (7), mostraram a ocorrência da diminuição do metabolismo cerebelar em ratos afetando, desta forma, a coordenação motora, a aprendizagem e a propriocepção, o que evidencia mudanças neuroadaptativas no cérebro, após exposição prolongada a canabinóides. A administração crônica de canabinóide resultou também no desenvolvimento de tolerância nos animais em relação aos efeitos agudos, incluindo os efeitos motores (8, 9). Em relação aos seres humanos os sinais de aumento de tolerância são bem documentados e, regra geral, aparecem com doses acima de 3mg/kg/dia. (10,11,12)


2) Abstinência

Pode-se traçar um paralelo entre o reconhecimento de uma síndrome de abstinência de maconha e da nicotina. Durante anos a comunidade científica negou a existência de uma dependência física da nicotina, uma vez que os sintomas da abstinência eram mais subjetivos, tais como ansiedade, depressão, irritabilidade, inquietação, ou seja, entendiam, por isso, que o tabagismo levava tão somente a dependência “psicológica”. Atualmente não há quem tenha dúvidas da existência de uma abstinência da nicotina, mas o mesmo ainda não ocorre com a maconha, apesar de vários estudos já viram deixando clara a existência da síndrome. Um estudo comparativo recente (Am J Addiction, 2005, jan-feb; 14(1):54-63 (13), mostrou que ambas as abstinências, de nicotina e de maconha, são similares tanto em magnitude quanto no curso do tempo.

Um estudo feito em uma população de 72 adolescentes, com idades entre 14 e 19 anos, que procuraram tratamento no Centro de Tratamento e Pesquisa da Universidade de Vermont mostrou que o tipo de sintomas de abstinência nesta população é praticamente igual aos sintomas em uma população de adultos na mesma situação, diferindo, somente, em incidência e magnitude, uma vez que são mais brandos na adolescência. Isto indica que o tempo de uso aumenta as chances e a intensidade da abstinência e, provavelmente, da dependência. (14)


Em busca de comprovação científica do desenvolvimento da síndrome de dependência, alguns pesquisadores comprovaram a semelhança entre os sintomas apresentados pelos animais e pelos seres humanos após a retirada da droga. Inicialmente foram feitos estudos em macacos (15,16,17,18), nos quais o THC foi administrado pelas vias intravenosa, intramuscular e oral, e observou-se sintomas de abstinência após a interrupção da administração da substância, tais como, agressividade, anorexia, bruxismo, irritabilidade, que são também observados em humanos durante a síndrome de abstinência. Posteriormente a administração de antagonista do receptor canabinóide CB1 (SR141716A) em ratos tratados cronicamente com THC resultou no aparecimento de sintomas de abstinência como piloereção, tremores, ptose entre outros.


Em seres humanos foram feitos estudos com pacientes internados e em tratamento ambulatorial. Em 1999, uma pesquisa feita por Haney et al. (19), durante 20 dias, em amostra de 12 usuários de maconha em regime de internação, durante a qual foi administrado placebo (nos dias 1-3, 8-11 e 16-19), 20 mg de THC oral (nos dias 4-7) e 30mg de THC oral (nos dias 12-15). Ao término deste estudo observaram que os sintomas apresentados durante a fase de uso do placebo estavam associados à abstinência de THC: aumento da ansiedade, depressão e irritabilidade, e diminuição da qualidade e da quantidade de sono.

A importância de um estudo com pacientes tratados ambulatorialmente se dá à medida que fatores ambientais são levados em consideração como influenciadores do padrão de consumo (20,21). Uma pesquisa realizada por Kouri et al. (22) observou, durante 28 dias, a agressividade em pacientes que tinham interrompido (comprovado por testes toxicológicos de urina diários) o uso de maconha desde o início do estudo. O resultado foi um aumento significativo da agressividade desses pacientes, observado, principalmente, do terceiro ao sétimo dia de abstinência. Os pacientes que faziam uso de maconha diariamente ficaram visivelmente mais agressivos do que os que fumavam eventualmente.


Uma revisão do conceito de Síndrome de Abstinência da Maconha feita por Smith em 2001, deixou clara a existência desta síndrome, porém ressaltou a importância do desenvolvimento de mais estudos, uma vez que alguns fatores podem interferir no aparecimento dos sintomas de abstinência, tais como: uso concomitante de outras drogas, ambiente social em que vive e personalidade do usuário. (23)


3) Consumo maior do que o pretendido

Outro critério importante na descrição de um quadro de Síndrome de Dependência de Maconha é o aumento progressivo da freqüência e quantidade de droga consumida, sem que isso seja previamente programado pelo usuário.


Pesquisa (24) realizada pela Addiction Research and Treatment Service, estudou o padrão de consumo de 229 jovens (165 meninos e 64 meninas), entre 13 e 19 anos, e comprovou que a progressão do consumo de maconha, desde a primeira vez até o uso regular, é mais rápida que a progressão do consumo de álcool e tabaco. Nesta pesquisa 53% dos jovens afirmaram consumir maconha em quantidades maior e durante mais tempo do que o pretendido.


Num estudo com amostra representativa da população alemã, constatou-se que o progresso do uso experimental para o regular de maconha era mais comum do que se esperava. Neste estudo 45,5% da amostra de 1.228 indivíduos respondeu que usavam maconha durante um tempo maior do que pretendiam. (25)


4) Tentativas frustradas de interrupção ou diminuição do uso

É comum o usuário passar por algumas tentativas de parar de usar a substância, o que não ocorre apenas no caso da maconha. Uma vez instalada a síndrome de dependência é natural que se desenvolvam mudanças neuroadaptativas no organismo do indivíduo o que certamente dificulta a interrupção do uso, do ponto de vista neurobiológico do consumo. Além da justificativa neurobiológica existem outros fatores que podem agravar ou perpetuar o uso, como fatores ambientais, comportamentais, psicológicos e socioculturais.


No estudo feito pela Addiction Research na Treatment Service (24) com jovens norte-americanos, 35% afirmaram sentir vontade de parar de usar maconha, mesmo tendo história de tentativas anteriores frustradas. Esse dado mostrou que aproximadamente 1/3 da amostra admite não ter controle sobre seu consumo. Já no estudo com a população alemã 27,3% da amostra, que compreendia jovens entre 14 e 17 anos, afirmaram ter vivenciado algumas tentativas frustradas de interrupção do uso. (25)

5) Tempo gasto com a droga

Com a evolução do consumo o usuário passa a gastar seu tempo preocupado em gerar recursos para aquisição da maconha, quer seja com atividades voltadas para obtenção e uso, quer seja na busca por seus efeitos.

Na pesquisa, feita por Crowley et al.,77% da amostra afirmaram gastar grande quantidade de tempo em atividades necessárias para obtenção, uso e recuperação dos efeitos da maconha. (24) Um estudo feito por Perkonigg et al. Com 1228 indivíduos mostrou que 72,7% dos usuários afirmaram gastar cada vez mais tempo usando a droga. (25)


6) A droga como prioridade

Em um determinado momento do processo de desenvolvimento da Síndrome de Dependência, o consumo e a busca pela droga passam a ser mais importantes do que atividades antes prioritárias. O usuário passa a dar prioridade ao ato de fumar maconha em detrimento do lazer, crescimento profissional e interação social.

Aproximadamente 155 jovens (66%) que participaram da pesquisa feita por Cowley et al., afirmaram abandonar atividades diárias importantes em função do aumento do uso de maconha, e este mesmo critério foi preenchido por 54,5% dos jovens que participaram da pesquisa realizada na Alemanha. (24,25)


7) Uso da droga a despeito dos problemas por ela causados

Na pesquisa de Cowley et al., 97% dos jovens americanos continuaram a usar mesmo depois de vivenciarem situações prejudiciais associadas ao consumo de maconha, enquanto que na pesquisa realizada por Perkonigg...(Patterns of Cannabis) este valor foi de 81,8%. (24,25) A amostragem de Cowley já é, por si só, de jovens provenientes de órgãos ligados à justiça, que provavelmente já tiveram problemas legais associados ao uso de drogas. Esta constatação está de pleno acordo com o sétimo critério descrito no DSM-IV-TR, que afirma exatamente o fato do usuário ter problemas físicos ou psicológicos causados ou agravados pela droga e isso não ser um elemento motivador para o abandono da droga.


Quem tem mais risco de ficar dependente?

Embora seja clara a evidência de uma Síndrome de Dependência de Maconha nem todo usuário tende a desenvolvê-la. Alguns fatores de risco devem ser levados em consideração como uso de três ou mais drogas antes do primeiro uso de cannabis, uso antes da adolescência tardia, renda familiar baixa, além de ambiente familiar, personalidade e influências específicas da idade, que são considerados fatores de risco relativos, uma vez que dependendo do contexto podem funcionar como fatores de proteção. (26,27)

Conclusão

Ainda que haja extenso debate sobre a existência de uma Síndrome de Dependência de Maconha, não se pode negar que se acumulam inúmeras evidências da mesma. O conhecimento de tal evidência é fundamental para que se possa elaborar políticas preventivas, particularmente em populações de risco e estratégias para tratamento de dependentes.


Referências


1- Comptom WM, Grant BF, Colliver JD, Glantz MD, Stinson FS: prevalence of Marijuana Use Disorders in the United States 1991-1992 and 2001-2002. JAMA, May 5, – vol 291, nº. 17, 2004


2- Anthony, JC., Warner, LA, Kessler, RC: Comparative epidemiology of dependence of tobacco, alcohol, controlled substance, and inhalats: basic findings the National Comorbity Survey. Exp. Clin. Pychopharmacol. 2, 244-268, 1994.


3- Newcomb, MD:Understanding the multidimencional nature of drug use and abuse: the role of consumption, risk factors, and protective factors. In: Glantz, M., Pickens, RW (Eds.), Vulnerability to drug abuse. American Psychological Associantion, Washington, DC, pp. 255-298, 1996.


4- Justinova Z, Goldberg SR, Heishman SJ, Tanda G: Self-administration of cannabinoids by experimental animals and human marijuana smokers. Pharmacol Biochem Behav, 81 (2): 285-299, Jun-2005.


5- Ridenour, TA, Cottler, LB, Comptom, WM, Spitznagel, EL, Cunningham-Williams, RM: Is there a progression from abuse disorders to dependence disorders? Addiction, 98, 635-644, 2002


6- DSM-IV American Psychiatric Association: Diagnostic and Statistical manual of Mental Disorders. 4th edition. Washington DC, American Psychiatric Association, 1994


7- Gatley SJ, Volkow, ND: Addiction and imaging of the human living brain. Drug Alcohol Depend, 51, 97-108, 1998.


8- Abood ME, Sauss C, Fan F, et al: Development of behavioral tolerance to delta-9-THC without alteration of cannabinoid receptor binding or mRNA levels in whole brain. Pharmacol Biochemical Behav 46: 575-579, 1993


9- Oveido A, Glowa J, Herkenham M: Chronic cannabinoid administration alters cannabinoid receptor binding in rat brain: a quantitative autoradiographic study. Brain Res 616: 293-302, 1993.


10- Aceto MD, Scates SM, Lowe JA, et al: Cannabinoid precipitated withdrawal by the selective cannabinoid receptor antagonist SR 141716A. Eur J Pharmacol 282: R1-R2, 1995


11- Rodriguez de Fonseca F, Carrera MRA, Navarro M, et al: Activation of corticotropin-releasing factor in the limbic system cannabinoid withdrawal. Science 276: 2050-2054, 1997.


12- Tsou K, Patrick SL, Walker JM: Physical withdrawal in rats tolerant to delta-9-THC precipitated by a cannabinoid receptor antagonist. Eur J Pharmacol 280: R13-R15, 1995


13- Am Journal Addiction, 2005, jan-feb, 14 (1): 54-63 REFERÊNCIA


14- Vandrey R, Budney AJ, Kamon JL, Stanger C: Cannabis withdrawal in adolescent treatment seekers. Drug Alcohol Depend 78: 205-210, 2005.


15- Beardsley PM, Balster RL, Harris LS: Dependence on tetrahydrocannabinol in rhesus monkeys. J Pharmacol Exp Ther, 239: 311-319, 1986.


16- Fredericks AB, Benowitz N: An abstinence syndrome following chronic administration of delta-9-tetrahydrocannabinol in rhesus monkeys. Psychopharmacology (Berl), 71: 201-201, 1980.


17- Kaymakcalan S: Tolerance to dependence on cannabis. Bull Narc, 25: 39-47, 1973.


18- Stadnicki SW, Schaeppi U, Rosenkrantz U, Braude MC: Crude marihuana extract: EEG and behavioral effects of chronic oral administration in rhesus monkeys. Psychopharmacol, 37: 225-233, 1974.


19- Haney M, Comer SD, Ward AS, Foltin RW, Fischman MW: Abstinence symptoms following oral THC administration to humans. Psychopharmacol (Berl), 14: 385-394, 1999.


20- Siegel S: Classical conditioning, drug tolerance, and drug dependence, in Research Advances in Alcoihol and Drug Problems, vol 7. Editado por Israel Y, Glaser FB, Kalant H, Popham RE, Schmidt W, Smart RG. New York, Plenum, 202-246, 1983.


21- Wikler A: Opioid dependence: mechanisms and treatment. New York, Plenum, 1980.


22- Kouri EM, Pope HG, Lukas SE: Changes in aggressive behavior during withdrawal from long-term marijuana use. Psychopharmacol (Berl), 143: 302-308, 1999.


23- Smith NT: A review of the published literature into cannabis withdrawal symptoms in human users. Addiction, 97. 621-632, 2001.


24- Crowley TJ, Macdonald MJ, Whitmore EA, Mikulich SK: Cannabis dependence, withdrawal, and reinforcing effects among adolescents with conduct symptoms and substance use disorders. Drug Alcohol Depend. 1998 Mar 1;50(1):27-37.


25- Perkonigg A, lieb R, Höfler M, Schuster P, Sonntag H, Wittchen HU: Patterns of cannabis use, abuse and dependence over time: incidence, progression and stability in sample of 1228 adolescents. Addiction, 94, 1663-1678, 1999.


26- Van den Bree MBM, Pickworth WB: Risk factors predicting changes in marijuana involvement in teenagers. Arch Gen Psychiatry, vol 62:311-319, mar-2005.


27- Chen C, O’Brien MS, Anthony JC: Who becomes cannabis dependent soon after onset of use? Epidemiological evidence from the United States: 200-2001. Drug and Alcohol Dependence 79: 11-22, 2005.


Fonte: UNIAD

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A ciência adverte: fumar maconha emburrece

MACONHA: A PESQUISA E A REJEIÇÃO NOS EUA

Por Milton Corrêa da Costa, especial para o blog Repórter de Crime

Um recente estudo da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) acaba de ratificar o que já havia sido objeto de pesquisa em outros países: o hábito de fumar maconha frequentemente, mesmo que em pouca quantidade, pode danificar seriamente a área do cérebro responsável pela memória. Por sua vez, na semana passada, a chamada "corrente progressista" -são cerca de 190 milhões de usuários no mundo segundo a ONU- que luta pela legalização do cultivo, venda e consumo da maconha, acaba de sofrer um duro golpe. Nos EUA, a Califórnia, primeiro estado a oficializar o uso medicinal da cannabis em 1996, rejeitou, em referendo popular, tal proposta. Mesmo para uso medicinal o uso da maconha foi ainda rejeitado, pela corrente de conservadores, nos estados de Oregon e Dakota do Sul. Medida de bom senso contra uma droga, com seu componente psicoativo ( tetrahidrocannabinol-THC), cada vez mais potente hoje- vide a maconha hidropônica- que nada tem de tão recreativo assim.

Uma opinião, das mais importantes, já citada inclusive em artigo do jornalista Jorge Antônio Barros de 'O GLOBO', que coloca em xeque o pressuposto de que a maconha é uma droga inofensiva, parte da diretora do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas( EUA), a mexicana Nora Volkow, ao afirmar: "Há quem veja a maconha como uma droga inofensiva.Trata-se de um erro. Comprovadamente, a maconha tem efeitos bastante danosos. Ela pode bloquear receptores neurais muito importantes. Estudos feitos em animais mostraram que, expostos ao componente ativo (THC) há intereferências sob controle do apetite, memória e humor. Isso, causa desde aumento da ansiedade, até a perda de memória e depressão. Claro que há pessoas- prossegue a estudiosa afirmando- que fumam maconha diariamente por toda vida sem que sofram consequências negativas, assim como há quem fume cigarros até os 100 anos de idade e não desenvolva câncer de pulmão. Mas até agora não temos como saber quem é tolerante á droga e quem não é. Então a maconha é sim perigosa", afirmou a psiquiatra que conduziu, na década de 80, estudos comprovando que a cocaína causa dependência química, além de graves danos ao cérebro.

Acrescente-se a constatação de alguns estudiosos sobre o uso da cannabis, em nosso país, como a professora de psiquiatria Maria Teresa Costa de Aquino, da FCM / UERJ, diretora do NEPAD ( Núcleo em Atençao ao Uso Indevido de Drogas), no Rio, que afirma que a maconha pode causar síndrome amotivacional, um estado letárgico de falta de motivação para o trabalho, estudo, atividades físicas e outras tarefas do dia a dia. "A maconha de que falamos hoje não é a mesma de 20 ou 30 anos atrás.A percentagem de substância alucinógena é bem maior", diz a estudiosa.
Outros estudiosos afirmam que a maconha, em uso cont[inuo, pode levar os dependentes a um estado agressivo exacerbado e dar causa a episódios psicóticos. Não custa lembrar que no ano passado em São Paulo, o jovem Carlos Eduardo Sandfeld Nunes, de 24 anos, assassino confesso do famoso cartunista Glauco Villas Boas e do seu filho Raoni, encontrava-se, segundo o exame toxicológico, realizado após o bárbaro crime, sob o efeito de maconha. Cadu, como era chamado o homicida,não estudava, não trabalhava, fumava cannabis desde os 15 anos e passou a traficar a droga há algum tempo para sustentar o vício, apresentando ainda surtos psicóticos (alucinações e delírios).

John McGrath, do Instituto Neurológico de Queensland, na Austrália, numa pesquisa que relaciona psicose ao uso contínuo da maconha, estudou mais de 3.800 homens e mulheres nascidos enttre entre 1981 e 1984 e comparou seus comportamentos, após completarem 21 anos de idade, para perguntar-lhes ( todos já eram pacientes) sobre o uso da maconha em suas vidas, avaliando os entrevistados para episódios psíquicos. Cerca de 18% relataram uso de maconha por três ou mais anos, outros 16% por de quatro a cinco anos e 14% durante seis ou mais anos. Ressalte-se que Cadu, o duplo homicida, fumava maconha há mais de nove anos. A pesquisa de McGrath concluiu que os que tinham seis ou mais anos de uso da droga tinham duas vezes mais chances de desenvolver psicose não afetiva, como esquizofrenia. O estudo foi publicado na revista de psiquiatria " Archives of General Psychiatry".

Assim sendo, ainda que conclusões científicas precisem ser relativizadas, mormente quanto a um tema tão polêmico- cada caso é um caso- não se pode desconsiderar tais estudos e depoimentos. Chega agora a notícia de que o uso prolongado do álcool -droga lícita- causa talvez mais danos do que o crack e a heroína. Outra notícia, muito lamentável, que mostra que a questão da droga não poupa gregos nem troianos, envolve o recente falecimento do surfista Andy Irons (32 anos), três vezes campeão do mundo em sua especilidade esportiva, assinala que o famoso atleta, que já tivera envolvimento com drogas, encontrava-se em processo de recuperação da dependência. Andy havia contráido dengue recentemente, O exame toxicológico, em razão do uso de diferentes medicamentos, revelará a causa-mortis.
A realidade é que o "não" da maioria dos californianos à proposta de legalização da maconha foi medida de bom senso. Já nos bastam os males causados em todo mundo pelo alcoolismo e o tabagismo. Drogas não agregam valores sociais positivos. Há outros prazeres prara os jovens, na vida, sem que necessitem da busca ( falsa) do "mundo colorido" através de estados alterados de consciência. O bom senso determina a proteção de nossas futuras gerações no posicionamento contrário à descriminalização de drogas. Aos pais e responsáveis fica o alerta de que, neste caso, o preço da felicidade é a eterna vigilância de seu filhos. A maconha é uma perigosa porta aberta para o caminho da destruição.
Milton Corrêa da Costa é Coronel da PM do Rio na reserva

Fonte: UNIAD

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Maconha faz mal?

por Sérgio de Paula Ramos* PDF Imprimir E-mail

Zero Hora

Sou dos que pensam que não cabe a um especialista determinar como uma sociedade deve se comportar frente a este ou àquele tema. Nosso dever é dar informações científicas e permitir que, em posse delas, a própria sociedade decida sobre seus caminhos.
Com a maconha, é isso que deve ocorrer. O especialista alerta que seu uso por jovens, comprovadamente, associa-se com posterior queda no rendimento escolar, experimentação de outras drogas, depressão e esquizofrenia. Ainda que jovens que usaram maconha mais do que 100 vezes na vida (ou seja, duas vezes por semana ao menos por um ano), ao chegarem aos 25 anos, terão menos diplomas universitários e estarão menos empregados que seus iguais não usuários.

Outro fato relevante é que maconha, na história natural de um dependente químico, é a segunda droga de experimentação, sendo a primeira o álcool; daí porque se diz que ambas são drogas de entrada para as demais. Igualmente, é de se destacar o fato de que quanto mais uma droga for oficial ou oficiosamente liberada, maior será seu consumo e os problemas decorrentes dele.
Perguntados sobre por que experimentaram maconha, os jovens respondem que por curiosidade e pressão do grupo. Já com os não experimentadores a resposta é que não experimentaram porque é proibido e faz mal.
Tais fatos estão muito bem documentados por uma plêiade de trabalhos científicos de todos os quadrantes. Em ciência, primeiro fazemos uma observação, depois usamos uma metodologia consistente para verificar se nossa observação procede; depois, ela é compartilhada por outros pesquisadores, até que se transforme num consenso.
Não é o caso desse trabalho, publicado há 11 anos pelo Dr. Dartiu Silveira, citado pelo jornalista Marcos Rolim. Sua amostra foi pequena, seu tempo de seguimento insuficiente, e as demais variáveis não neutralizadas. Tais imprevidências impossibilitaram que a comunidade científica compartilhasse das conclusões do autor e, decorridos todos esses anos, desconheço outro trabalho que tenha chegado aos mesmos resultados; e mais, tampouco tenho informação de que algum serviço de dependência química no mundo esteja se regendo por essa orientação terapêutica, de sugerir que uma porta de saída para o crack seja usar maconha. Aliás, no passado, cometia-se a ingenuidade de se achar que cachimbo ajudaria o tabagista a parar de fumar ou que calmantes, tipo diazepínicos, ajudariam alguém a parar de beber.
Portanto, a título de resumo, o uso de maconha por jovens é deletério, sua liberação aumentará o consumo e os problemas dele decorrentes. Em posse de tais informações, que a sociedade decida o que quer fazer. Até lá, o debate robusto e elegante ajudará; e que não se tome como atitude antiética lembrar fato verdadeiro e de conhecimento público.

* Psiquiatra e psicanalista, coordenador da Unidade de Dependência Química do Hospital Mãe de Deus

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Drogas, o debate necessário

Carlos Alberto Di Franco - O Estado de S.Paulo

Frequentemente, a informação veiculada nos meios de comunicação produz um travo na alma. A sociedade desenhada no noticiário parece refém do vírus da morbidez. Crimes, aberrações e desvios de conduta desfilam na passarela da mídia. O goleiro Bruno foi o mais recente capítulo. Os telejornais, e até mesmo os diários mais sóbrios, ficaram de joelhos para o espetáculo. Assistiu-se ao circo da morte. O crime foi o resultado de alguns desvios: o machismo da sociedade que trata a mulher como objeto de posse descartável, a cultura da impunidade, a disseminação das drogas e os valores frágeis de garotas extasiadas com ícones de plástico, mas carregados de dinheiro e glamourizados pelas engrenagens do entretenimento.

Observa-se, igualmente, um crescente movimento a favor da despenalização das drogas, sobretudo da maconha. O dependente, de fato, não deve ir para a cadeia. Precisa de ajuda, de apoio, de tratamento. Agora, o traficante, frio e calculista, deve pagar por seu crime com pena proporcional à gravidade da sua perversidade.
Não se devem, igualmente, subestimar os efeitos nocivos da maconha para a saúde do usuário.Mas não vou falar do goleiro. Vou escrever sobre o avanço das drogas, que ameaça transformar o sonho da juventude numa terrível frustração. A violência avança, impune, no Brasil e o seu principal estopim - a distribuição e o consumo de drogas - continua fora da agenda pública e do debate dos candidatos.No mercado da cocaína o Brasil exerce triste liderança. O País é hoje o maior espaço consumidor da droga na América do Sul e provavelmente o segundo maior nas Américas. Cresce em progressão geométrica a demanda doméstica. Ademais, somos, hoje, um importante corredor de distribuição mundial.
Ruy Castro, escritor de minha predileção e dono de uma sinceridade afiada, abordou o tema em artigo na Folha de S.Paulo. "A Secretaria Nacional Antidrogas, órgão do governo federal, quer criar uma agência para pesquisar os "efeitos medicinais" da maconha. Se trabalhar direito, será uma decepção para os usuários da erva: a maconha "medicinal" não viria para ser fumada - mesmo porque esta tem todos os males do tabaco e mais alguns."
"A lista das mazelas provocadas pela maconha fumada, estabelecida por médicos da Universidade de Oxford e citada na Folha (Tendências/Debates, 22/10) pelos doutores Ronaldo Laranjeira e Ana Cecília Marques, inclui dependência química, bronquite crônica, insuficiência respiratória, risco de doenças cardiovasculares, câncer no sistema respiratório, diminuição da memória, ansiedade, depressão, episódios psicóticos, leseira, apatia e baixa no rendimento escolar."Multiplicam-se, paradoxalmente, declarações otimistas a respeito das estratégias da redução de danos. O essencial, imaginam os defensores da nova política, não é a interrupção imediata do uso de drogas pelo dependente, mas que ele tenha uma melhora em suas condições gerais. A opção pela redução de danos pode ser justificada em determinadas situações, mas não deve ser guindada à condição de política pública. Afinal, todos sabem que, assim como não existe meia gravidez, também não há meia dependência. Embora alguns usuários possam imaginar que sejam capazes de controlar o consumo, cedo ou tarde descobrem que, de fato, já não são senhores de si próprios.
"Donde, se provadas as qualidades terapêuticas da maconha - embora ninguém tenha conseguido até hoje descobrir sua superioridade em relação às substâncias tradicionais -, seu uso deveria se dar em forma de gotas, pomada, supositório ou o que for, e não enrolada, queimada e tragada. (...) A secretaria faria melhor se concentrasse seus esforços numa guerra que o Brasil se arrisca a perder: contra o crack, a pior droga já inventada. E a mais covarde", conclui Castro.
A verdade precisa ser dita. Não se pode sucumbir à síndrome do avestruz quando o que está em jogo é a vida das pessoas. O hediondo mercado das drogas está dizimando a juventude. Ele avança e vai ceifando vidas nos barracos da periferia abandonada e no auê dos bares e boates frequentados pela juventude bem-nascida. Movimenta muito dinheiro. Seu poder corruptor anula, na prática, estratégias meramente repressivas. A prevenção e a recuperação, únicas armas eficazes a médio e a longo prazos, reclamam um apoio mais efetivo do governo e da iniciativa privada às instituições sérias e aos grupos de autoajuda que lutam pela reabilitação de dependentes.
Tenho acompanhado o excelente trabalho realizado por algumas comunidades terapêuticas. Sem uso de medicamentos e investindo num conjunto de providências que vão às causas profundas da dependência, essas comunidades têm obtido bons índices de recuperação. Visitei algumas dessas instituições. Aponto, entre outras, uma instituição de referência: a Comunidade Terapêutica Horto de Deus, em Taquaritinga, no interior de São Paulo (www.hortodedeus.org.br). Com gravíssimas dificuldades financeiras e sem nenhum apoio dos governos, embora não faltem falsas promessas de ajuda de políticos oportunistas, a entidade tem sido responsável pela recuperação de inúmeros dependentes químicos.
Merece um registro. Os governos não se dão conta de que o trabalho dessas instituições repercute diretamente na qualidade da segurança pública. Elas rompem o círculo vicioso das drogas e criam o círculo virtuoso da recuperação e da ressocialização.

Debates no Congresso Nacional sugerem que as comunidades terapêuticas, bem como as demais instituições idôneas que trabalham na recuperação de adictos, possam, num futuro próximo, receber recursos provenientes do Fundo Nacional Antidrogas e do Sistema Único de Saúde (SUS). Seria uma providência inteligente. É sempre melhor apoiar o que já funciona do que cair na tentação de criar novas estruturas. Afinal, um adicto recuperado é o melhor aliado na luta contra as drogas.

DOUTOR EM COMUNICAÇÃO, É PROFESSOR DE ÉTICA E DIRETOR DO MASTER EM JORNALISMO E-MAIL: DIFRANCO@IICS.ORG.BRF