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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A dor da alma dói no corpo_1/3

Matéria da Revista Veja – edição 221 – ano 44 – nº 14, de 06 de abril de 2011 - págs. 100/101, dividida em 3 partes, nos dias 01, 03 e 05 de Agosto.

por Laura Ming

Há 30 anos, motivado pelas queixas constantes de seus pacientes, o psiquiatra americano Stephen Stahl, de 59 anos, professor da Universidade da Califórnia, decidiu estudar a relação entre dor física e depressão. Apesar de acometer até 80% dos doentes, um problema raramente á associado ao outro. Especializado em neurologia e farmacologia, ele se dedica a desvendar (e tentar reverter) o desequilíbrio cerebral que faz com que a vida dos deprimidos seja ainda mais penosa. Stahl esteve em São Paulo recentemente para dar uma palestra sobre depressão e dor para médicos brasileiros.

Nessa ocasião, falou a VEJA:

Quando foi estabelecida a relação entre depressão e dor?

No dia a dia dos consultórios, percebíamos que os pacientes deprimidos se queixavam muito de dor – de todos os tipos e intensidades. Vejo isso desde o início da minha carreira, nos anos 80. Por muito tempo, no entanto, eu interpretei essas reclamações como uma fantasia dos doentes. Tenho uma formação acadêmica extensa, especializei-me em neurologia e farmacologia. Olhava para essas queixas com muita desconfiança. Conforme fui me aprofundando nos estudos sobre o cérebro e os circuitos cerebrais, comecei a perceber que estava totalmente enganado. Entendi que os neurotransmissores (substâncias químicas responsáveis pela comunicação entre os neurônios) envolvidos nos quadros depressivos estavam associados também à sensação de dor e poderiam ser afinados com medicamentos, tal qual um músico afina seu instrumento. Fiquei com muita vergonha ao descobrir que as queixas de meus pacientes eram reais. Em meados dos anos 90, surgiram os antidepressivos com ação em seretonina e noradrenalina (neurotransmissores associados à sensação de bem-estar). Pudemos perceber então que os pacientes relatavam uma melhora no quadro da dor. Essa é a prova de que algumas dores são decorrentes do mau funcionamento dos neurotransmissores. Hoje tento passar esse aprendizado para os médicos mais jovens, para que eles não cometam o mesmo erro que cometi no passado. É assim que a medicina funciona, mudando paradigmas.

Por que até hoje o diagnóstico da dor física associada à depressão é tão difícil?

Nos manuais de medicina, os sintomas da depressão são os seguintes: perda de vitalidade ou de interesse pela vida, dificuldade de concentração, sentimento de culpa, problemas de sono (excesso ou falta dele), pensamentos ou atos suicidas, fadiga, alterações de apetite e peso (tanto ganho quanto perda), comprometimento da habilidade psicomotora (agitação ou lentidão). Nenhum deles está associado à dor. Se um paciente me procura reclamando de insônia, tristeza e dor, não adianta nada eu só tratar a insônia e a tristeza, como a maioria dos psiquiatras faz. O conceito de remissão, de cura completa, prevê o desaparecimento de todos os sintomas depressivos. Oito de cada dez pacientes com depressão moderada ou grave apresentam algum tipo de dor, em maior ou menor grau. Ou seja, estamos falando de milhões de pessoas em todo o mundo que não se recuperam do quadro depressivo completamente, porque continuam a sentir um sintoma que não é reconhecido como do âmbito da doença.


sexta-feira, 24 de junho de 2011

Usuários de drogas têm dificuldades em reconhecer emoções

Hype Science

Segundo cientistas da Universidade de Granada, na Espanha, pessoas que abusam das drogas têm dificuldade em identificar emoções a partir de uma expressão facial.

O estudo analisou o reconhecimento de emoções básicas, como alegria, surpresa, raiva, tristeza, medo e aversão. Desses, raiva, aversão, medo e tristeza foram os que mais geraram dificuldades aos usuários.

Para realizar o estudo, os pesquisadores realizaram uma avaliação neuropsicológica (com avaliação cognitiva e emocional, além de testes de processamento) em 123 pessoas usuárias de diferentes tipos de drogas e 67 não-usuárias, todas com as mesmas características sociais e demográficas. O público alvo foi recrutado em dois projetos de reabilitação na província de Granada, e consumiam drogas como maconha, cocaína, heroína e ectasy.
O estudo revelou que 70% dos toxicodependentes apresentavam algum tipo de deterioração psicológica, independentemente do tipo de substância consumida. Os efeitos mais severos estavam relacionados à memória de curto prazo, mas a fluência, flexibilidade e planejamento também foram prejudicados.

Fonte: UNIAD

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Ele disse, ela disse_3/7

Série com 3 matérias, que serão publicadas em Abril e Maio de 2011, divididas em partes.

Aqui a 2ª matéria, dividida em 7 partes: Ele disse, ela disse; que será publicada nos dias 25, 27, 29 de Abril e 02, 04, 06 e 09 de Maio.

por Deborah Tannen

Professora de linguística da Universidade de Georgetown e autora de You Were Always Mum's Favorite!: Sisters in Conversation Throughout

Their Lives (Random House, 2009), entre outros, ver mais bibliografia na postagem do dia 09 de Maio de 2011.

Revista Mente e Cérebro

Ano XVII nº209 – Julho 2010

www.mentecerebro.com.br

Mulheres e homens usam linguagens próprias – por isso nem sempre o entendimento é tão simples. Enquanto o discurso deles tende a se concentrar na hierarquia e na competição pelo poder, o delas é voltado ao objetivo de se aproximar ou se afastar do interlocutor

Melhor ou igual?

O foco contrastante entre a conexão e a hierarquia também lança luz sobre inúmeras conversas – e desentendimentos – de adultos. Vamos dizer que uma jovem conta a outra um problema pessoal e ouve em resposta: “Sei como você se sente” ou “A mesma coisa aconteceu comigo”. A “conversa sobre problemas” que se segue costuma reforçar a ligação entre elas. Na verdade, algumas mulheres sentem que devem escarafunchar os problemas e conta-los às amigas pra manter a intimidade. Como os homens não estão acostumados a esse ritual, é muito provável que se estivessem no lugar da amiga, fizessem uma leitura errada do pedido de ajuda. O resultado, nesses casos, é a frustração mútua: ela o culpa por mandá-la fazer o que ele quer e deixar de oferecer o amparo desejado; enquanto ele pensa que fez exatamente o que ela solicitou e não tem a mínima ideia do motivo pelo qual ela continua a falar sobre a questão, se não pretende resolvê-la da forma como ele orientou.

Situações semelhantes acontecem no ambiente profissional, onde os mal-entendidos podem ter sérias consequências na carreira. Por exemplo, se o chefe de uma mulher a ouve dizendo a um subordinado: “Você poderia fazer o favor de me trazer a cópia daquele relatório?”, é possível que pense que lhe falta confiança. Para ele, é como se ela sentisse que não tem o direito de pedir ao funcionário para fazer alguma coisa. Mas a verdade é exatamente o oposto. Ela sabe que o empregado tem de fazer o que ela pede. E quando diz “poderia fazer o favor” ela opta por não explicitar desnecessariamente esse fato. Enquanto os homens tendem a enxergar os ritos femininos como falta de assertividade (ou até de competência), as mulheres confundem rituais menos diretos com prepotência e insegurança. O pensamento delas: ele realmente deve ter baixa autoestima se precisa se impor dessa forma.

O que nos leva de volta à mulher e ao homem dentro do carro, que têm suposições diferentes quanto a como pedir auxílio para encontrar o caminho. Do ponto de vista dela, essa solicitação significa fazer uma conexão breve com um estranho e chegar ao ponto desejado sem perder nada. Da perspectiva dele, a atitude o coloca em uma posição inferior diante de um estranho – o que representa uma experiência desagradável. Projetivamente, ele pode até acreditar que o esforço seja contraproducente, pois um informante que não conheça o caminho pode enviá-lo para qualquer direção equivocada, apenas para não reconhecer que não sabe a localização. Por esses dois motivos, faz sentido para ele evitar o desconforto e encarar dez minutos – ou meia hora – tentando encontrar o caminho sozinho.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Mensagens para o Inconsciente_6/8

Sexta postagem da série com 8 postagens, publicada na Revista Mente & Cérebro, edição especial n° 214, de novembro/2010, por Christof Uhlhass.

Mas também os acrônimos sem sentido como anm suscitavam o efeito de uma palavra prime de caráter positivo se antes os indivíduos tivessem lido várias vezes palavras de conotação positiva, como angel (anjo) e warm (calor). Abrams conseguiu até transformar smile em uma palavra subliminar emotivamente negativa: deixou que os indivíduos lessem várias vezes smut (sujo) e bile (bílis). O psicólogo deduz que, em nível subliminar, reconhecemos apenas fragmentos das palavras na memória. Em 2007, a empresa coreana Xtive lançou um programa de computador que sussurrava em frequências não audíveis frases bem-humoradas como "desligue esse treco" às pessoas dependentes do computador. Os produtores argumentam que a mensagem subliminar pode curar a dependência. Existe até "CDs subliminares" à venda: em geral, são inofensivas gravações de textos extraídos do seu contexto, acrescidos à música relaxante, que ajudam as pessoas a pegar no sono (pelo menos tem esse efeito para boa parte delas).

No entanto, não existe uma indicação com relação ao efeito exato desse material. E há poucas pesquisas em curso: do ponto de vista científico, esses produtos são pouco discutidos. Por definição, quem os compra não sabe que alcance têm as mensagens "disfarçadas" - se é que realmente tem algum efeito. Essas propostas estão quase totalmente em desacordo com a definição científica do estímulo subliminar. Se, por um lado, pesquisadores como Stanislas Dehaene usam esses recursos para medir o limite da consciência, por outro alguns supostos especialistas se apropriam do assunto e propõem uma "programação da mente", apostando que um estímulo imperceptível do inconsciente pode fazer a fantasia humana alçar voo. Porém, se excluírmos o que foi demonstrado pela ciência, o efeito que se pode obter com essas técnicas é pura questão de fé.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Mensagens para o Inconsciente_5/8

Quinta postagem da série com 8 postagens, publicada na Revista Mente & Cérebro, edição especial n° 214, de novembro/2010, por Christof Uhlhass.

Segundo Stanislas Dehaene, pode ser que elaboremos o estímulo subliminar em nível semântico. Seria um resultado fascinante: o estímulo óptico é reconhecido como palavra, a faixa de letras é decifrada e a representação da palavra é lembrada pelo cérebro. Tudo isso acontece sem nos darmos conta.
De acordo com Nakamura, o efeito priming subliminar passa de uma modalidade sensorial a outra. Mesmo se a palavra fosse inserida sob a forma escrita por 3 centésismos de segundo e a tarefa sucessiva de reconhecimento verbal consistisse na sua pronúncia, a faixa de letras inserida de forma subliminar diminuía o tempo de reação das pessoas. Dehaene deduz que percebemos os estímulos de maneira consciente quando produzem uma "reverberação" distribuída e duradoura no cérebro. Portanto, não apenas o tempo do estímulo é determinante, mas também os processos cognitivos superiores: por exemplo, a tarefa em que a pessoa está envolvida naquele momento ou na qual deve se concentrar.

Mas a questão científica ainda está aberta. Os céticos refutam a ideia de que possamos ler palavras em um nível inferior ao patamar da consciência. É provável que as faixas com poucas letras tenham sido "arquivadas" no cérebro como figura completa e criado efeitos priming. Em 2000, o psicólogo Richard Abrams, da Universidade de Washington, encontrou alguns indícios disso. Inicialmente, permitiu que os indivíduos determinassem o conteúdo emotivo dos termos: a palavra smile (sorriso), por exemplo, tinha efeito positivo, enquanto smut (sujeira) assumia conotação negativa. Após a experiência de priming, Abrams confirmou que uma palavra subliminar de cunho negativo provocava reações mais rápidas nos indivíduos quando se davam conta conscientemente de uma palavra que tinha o mesmo significado.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Mensagens para o Inconsciente_4/8

Quarta postagem da série com 8 postagens, publicada na Revista Mente & Cérebro, edição especial n° 214, de novembro/2010, por Christof Uhlhass.

Em 2000 surgiu o temor de possíveis influências políticas ocultas quando, para combater o adversário político Al Gore, um assessor da equipe de George W.Bush sugeriu iluminar muitas vezes em uma propaganda eleitoral a palavra bureaucrats (burocratas) e, por três centésimos de segundo apenas, as quatro últimas letras:rats, ou seja, ratos. Mas o uso da palavra "negativa" realmente influenciava os eleitores? O grupo de pesquisa coordenado pelo neurocientista cognitivo Stanislas Dehaene, pesquisador do Collège de France, emParis, estudou de que maneira os estímulos subliminares podem ser captados. O pesquisador Lionel Naccache, membro da equipe, forneceu a primeira demonstração direta da influência das palavras com conteúdo emotivo. Ao acompanhar três pacientes epiléticos que tinham em seu cérebro eletrodos para o tratamento da patologia, chamou sua atenção que palavras subliminares com forte dose emotiva exercem influência sobre a amígdala, uma região cerebral determinante no processamento de emoções. "Tais vocábulos modificavam a atividade da amígdala, justamente coo acontece com a elaboração consciente", afirmou Naccache.

O cientista Raphael Gaillard, outro pesquisador da equipe de Paris, demonstrou que palavras fugazes com conteúdo emotivo entram na consciência antes daquelas com sentido neutro. Durante sua experiência, mudou o tempo em que um vocábulo apresentado de forma subliminar é disfarçado, aleatoriamente, pela exibição de várias letras na mesma cena. No caso daquelas neutras, de cada dois pacientes um se lembrava do que estava representado na tela.
Quando se tratava de termos com conotação negativa, três em cada duas pessos se recordavam deles. Gaillard concluiu que o conteúdo emotivo de uma palavra pode reduzir o limiar da percepção consciente. E que as palavras percebidas de que possamos nos dar conta são elaboradas de maneira específica, de acordo com o seu conteúdo semântico. É muito improvável que com esses artifícios seja possível manipular as pessoas, porque, quando o estímulo não atinge a consciência, a influência dura pouco tempo. A experiência de Gaillard demonstra serem determinantes não apenas a duração da percepção, mas também o seu conteúdo. Além disso, os estímulos subliminares são elaborados de acordo com a atividade que a pessoa está desempenhando naquele momento.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Mensagens para o Inconsciente_3/8

Terceira postagem da série com 8 postagens, publicada na Revista Mente & Cérebro, edição especial n° 214, de novembro/2010, por Christof Uhlhass.

Como deve ser o estímulo para que passe despercebido? Pode ser de vários tipos, como demonstraram experiências desenvolvidas por psicólogos e neurocientistas. Sem que saibamos, o cérebro entende palavras, intterpreta a mímica dos rostos, decifra símbolos e capta sons. Numerosas experiências de priming (facilitação) desvendam a influência dos símbolos que escapam à consciência: um impulso desencadeado abaixo do patamar limite, o prime, influencia a reação a um estímulo percebido conscientemente, o target (alvo). Os exemplos clássicos dessas experiências têm base nos números; os participantes veem na tela um número entre 1 e 9 e devem classificá-lo apertando a tecla esquerda se inferior a 5 e a direita, se superior. É uma tarefa tão simples que, em geral, ninguém costuma errar.

A ação dos estímulos subliminares se manifesta principalmente no tempo da reação: os indivíduos reagem mais rápido se, antes do estímulo-target percebido conscientemente, aparecer ligeiramente um estímulo-prime subliminar, que requer apertar a mesma tecla. Se, por exemplo, um 7 for rapidamente iluminado antes de um 8 percebido conscientemente, os participantes decidem com mais rapidez apertar a telca correta. Ao contrário, um 4 subliminar os faria hesitar por mais tempo. A experiência também funciona se o número estiver escrito por extenso, como no caso de "sete". As palavras com significado emotivo, como "medo", também influenciam a escolha, e a mímica dos rostos, mais ainda.

A elaboração subliminar da expressão facial foi acompanhada em 2007 pelos psicólogos Monika Kiss e Martin Eimer, pesquisadores da Universidade de Londres, por meio do registro de medidas com o eletroencefalograma (EEG). Durante a experiência, 14 participantes eram orientados a diferenciar as fotos de pessoas com expressão assustada ou neutra. Os voluntários conseguiam realizar a tarefa com desenvoltura se o rosto fosse exibido por 200 milissegundos. Quando o tempo era reduzido para 8 milissegundos, as respostas eram eventuais. Neste caso, o estímulo podia ser definido como subliminar. Mesmo assim, o eletroencefalograma mostrava as mesmas variações que têm origem também com a percepção consciente. O "mito da ação subliminar" tem, portanto, uma base empírica: estímulos não captados conscientemente provocam reação que pode ser medida no cérebro. Não é aceitável, porém, falar de uma manipulação profunda dos nossos julgamentos e decisões.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Caminhos Promissores_6/6

Sexta postagem da série com 6 postagens sobre o Alzheimer, publicadas Revista Mente & Cérebro, edição especial n° 1, de maio/2010, por Michael S. Wolfe.



Outro empolgante avanço recente é a terapia celular. Mark Tuszynski e seus colegas da Universidade da Califórnia em San Diego realizaram biópsias da pele de pacientes com doença de Alzheimer na forma branda e inseriram nela o gene codificador do fator de crescimento neural (NGF, sigla em inglês). As células geneticamente modificadas foram então introduzidas cirugicamente no cérebro desses pacientes. A idéia era que elas produzissem e secretassem NGF, o que preveniria a perda de neurônios produtos de acetilcolina e melhoraria a memória. A terapia baseada em células foi uma estatégia inteligente para distribuir o NGF, proteína de tamanho grande que, de outra maneira, não conseguiria entrar no cérebro .Embora o estudo tenha incluído poucos indivíduos e carecido de controles importantes, pesquisas de acompanhamento mostraram redução do declínio cognitivo nos pacientes. Os resultados foram bons o bastante para justificar testes clínicos adicionais.

Embora algumas dessas terapias não cumpram suas promessas, os cientistas esperam encontrar ao menos um agente que possa efetivamente desacelerar ou interromper a perda gradual de neurônios no cérebro - o que salvaria milhões de pessoas.

Mirar na A-beta pode impedir o início do Alzheimer ou retardá-lo precocemente, mas se essa estratégia irá curar aqueles em estágios mais avançados da doença ainda não se sabe. Mesmo assim, os pesquisadores têm bons motivos para o otimismo cauteloso. A recente enxurrada de descobertas nos convenceu de que a busca por maneiras de prevenir e tratar a doença de Alzheimer não será em vão.

Correlação significativa

Muitos estudos têm sido feitos com base na hipótese de que pacientes tratados com estatinas (drogas utilizadas na redução do colesterol) têm menos chance de desenvolver Alzheimer que os demais. Até agora, porém, os resultados se mostraram controversos e não definitivos.

Em 2009, pesquisadores holandeses do Instituto Rotterdam parecem ter posto fim à controvérsia ao revelar a diminuição significativa do risco de doença de Alzheimer nos usuários de estatinas em comparação com aqueles que nunca fizeram uso da substância.

O estudo - até o momento o maior nessa linha de pesquisa - foi feito em 6.992 pessoas, acompanhadas por nove anos, e publicado no Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Caminhos Promissores_3/6

Terceira postagem da série com 6 postagens sobre o Alzheimer, publicadas Revista Mente & Cérebro, edição especial n° 1, de maio/2010, por Michael S. Wolfe.

Antes de ser retirada, uma parte da A-beta fica no interior da membrana on de a APP se ligou, entre suas porções interna e externa. Como as membranas são compostas por lipídios hidrofóbicos, a região da proteína que atravessa a membrana contém aminoácidos hidrofóbicos. Quando a A-beta é arrancada da APP pelas beta e gama-secretases e é liberada no ambiente aquoso fora da membrana, as áreas hidrofóbicas de diferentes moléculas A-beta unem-se umas às outras, formando pequenos blocos solúveis. No início dos anos 1990, Peter T.Lansbury Jr., hoje na Escola Médica de Harvard, mostrou que, em um tubo de ensaio, em concentrações altas, as moléculas A-beta podem se unir na forma de estruturas fibrosas similares às encontradas nas placas da doença de Alzheimer. Tanto as formações solúveis quanto as fibras de A-beta são tóxicas aos neurônios cultivados em laboratório, e as primeiras podem interferir em processo de aprendizado e memória em camundogons.

Essas descobertas apoiam a hipótese da cascata amiloide, mas a evidência mais forte veio do estudo de famílias com alto risco de desenvolver Alzheimer, com mutações genéticas raras que as predestinam à doença precocemente - antes dos 60 anos. Em 1995, Peter St.George-Hyslop e seus colegas da Universidade de Toronto identificaram mutações em dois genes relacionados, batizados de presenilina 1 e 2, causadoes das formas mais precoces e agressivas de Alzheimer, aparecendo tipicamente na faixa dos 30 ou 40 anos de idade. Tais mutações aumentam a proporção de A-beta propensa a se aglomerar. Hoje se sabe que as proteínas codificadas pelos genes presenilina são parte da enzima gama-secretase.

Dessa forma, dos três genes reconhecidos como causadores da forma precoce da doença de Alzheimer, um codifica o precursor da A-beta e os outros dois especificam componentes de uma enzima protease que ajudam a produzir o peptídeo maligno. Além disso, cientistas descobriram que pessoas portadoras de certa variação no gene que codifica a apolipoproteina E - que ajuda a agrupar os peptídeos A-beta em conglomerados e filamentos - têm risco elevado de desenvolver Alzheimer posteriormente. Diversos fatores genéticos provavelmente tenham papel no princípio da doença, cada qual dando uma pequena contribuição, e estudos em camundongos indicam que fatores ambientais alteram o risco da enfermidade; já exercícios podem reduzi-lo.





Os cientistas ainda não descobriram como os blocos solúveis e os filamentos insolúveis de A-beta rompem e destroem neurônios. Acredita-se que conglomerados de A-beta no exterior de um neurônio podem iniciar uma cascata de eventos que inclui a alteração das proteínas tau no interior da célula. Em particular, os conglomerados A-beta chegam até a modificar a atividade celular de enzimas quinases, que instalam fosfatos nas proteínas. As quinases afetadas adicionam fosfato em excesso à tau, alterando as propriedades químicas das proteínas e fazendo com que formem filamentos espiralados. As tau modificadas, de algum modo, destroem o neurônio, talvez rompendo os microtúbulos que transportam proteínas através dos axônios e dendritos. Mutações no gene da tau geram filamentos na proteína e causam outras doenças neurodegenerativas. Assim, a formação de filamentos de tau é aparentemente um evento mais geral que leva à morte neuronal, enquanto a A-beta é um promotor específico da doença de Alzheimer.

Dado o papel crítico da A-beta no processo da doença, as proteases que produzem esse peptídeo são alvos certos de drogas potenciais para inibir sua atividade. Inibidores de protease provaram-se muito eficientes no tramento de doenças como aids e hipertensão. O primeiro passo na formação da A-beta é dado pela beta-secretase, que rompre a maior parte da APP imediatamente externa à membrana celular. Em 1999, cinco diferentes grupos de pesquisa descobriram essa enzima, particularmente abundante nos neurônios cerebrais. Embora a beta-secrease esteja aderida à membrana, ela se parece muito com um conjunto de proteases encontrado em ambientes aquosos dentro e fora de células. Membros desse conjunto usam ácido aspártico, um tipo de aminoácido, para catalisar a reação de quebra de proteína. Todas as proteases usam água para quebrar suas respectivas proteínas, e enzimas da família aspartil-protease empregam um par do ácido para ativar a molécula da água para esse fim.